O ano 2010 começa com uma proposta para a escola: a cultura da paz que se entende por cooperação, solidariedade e respeito. Os desafios para a educação deste século são resgatar e interiorizar valores, promover a teia de relações, da tolerância e do diálogo como também conscientizar sobre a importância da inclusão e da proteção da biosfera. A educação da sensibilidade torna-se importante por ter um caráter motivador de emoções e por estar envolvida no processo da percepção, do pensamento e das ações do indivíduo.
Sabemos que as marcas deste século são a competitividade e o individualismo como formas de defesa, sabemos também que, historicamente, no Brasil configurou-se a pedagogia da individualidade desde o modelo tradicional, passando pela pedagogia renovada e pelo tecnicismo. Sem impor nem propor a educadores e educandos reflexão sobre os conceitos de interdependência e sentimento de solidariedade o país vem formando pessoas individualistas há décadas. Qual é, portanto, a função social da escola se estamos todos interligados? Precisamos buscar novos parâmetros, uma vez que a escola por meio da sua prática educativa, sempre refletiu a sociedade, seus anseios, interesses e necessidades.
Tendo em vista que despertar o espírito de solidariedade de classe social é o que têm questionado certos estudiosos preocupados com o avanço da miséria e da exclusão social no país, algumas indagações são feitas: como buscar uma linguagem pedagogicamente relevante sobre sensibilidade solidária? Como buscar uma pedagogia, uma prática educativa capaz de provocar e manter a sensibilidade solidária? Até que ponto o ser humano é capaz de solidariedade com pessoas e grupos sociais que estão fora do seu circuito de relacionamento? Como podemos institucionalizar o espírito de solidariedade para que funcione de um modo eficaz em uma sociedade complexa, em um mundo globalizado?
A nova Era do conhecimento e da informação com seus avanços em todos os sentidos trouxe novos paradigmas, provocando no homem moderno formas de pensamento mais condizentes com a época e, desse modo, a negação de outros valores cresce numa sociedade esfacelada com tendência à massificação e a perda da identidade. Todo esse processo por sua vez provoca desequilíbrio existencial, social, expressivo chegando a prejudicar as relações humanas.
Nos dias atuais se procura resgatar os instintos naturais e se pensa muito sobre a necessidade de uma educação para o desenvolvimento integral do ser humano. Acolher as diferenças é o primeiro passo para a solidariedade. Compreender as relações existentes entre escola/sociedade/mercado é um passo importante que daremos como educadores uma vez conhecendo as possibilidades e limites de nossa ação pedagógica, para podermos encontrar os espaços vazios por onde possamos atuar a favor da construção de uma prática educativa mais humana e solidária.
A pedagogia da qual falamos não foca somente a escola e a família. Ela é mais ampla, pois vivemos numa sociedade pedagógica, com várias instancias educativas em setores formais e informais numa perspectiva voltada para nova qualificação e formação com vista em um desenvolvimento pessoal. Investir, portanto, na generosidade e nos cuidados consigo mesmo e com o outro é uma maneira eficiente de diminuir e quem sabe erradicar a violência.
Aqui no Brasil em 2002 a UNESCO firmou parcerias com o governo do Rio de Janeiro e com a Associação Palas Athena para o desenvolvimento do programa 'Escolas de Paz' voltado para a educação de valores para a paz e para construção da cidadania.
Os Princípios Norteadores desse programa permeiam os seguintes aspectos: a] respeitar a vida e a dignidade das pessoas, sem discriminação; b] praticar a não-violência, repelindo a violência em suas formas: física, sexual, psicológica, econômica e social; c] cultivar a generosidade, a fim de terminar com a exclusão, a injustiça e a opressão política e econômica; d] defender a liberdade de expressão e a diversidade cultural; e] promover a conscientização sobre a importância do equilíbrio dos recursos naturais do planeta; f] contribuir com o desenvolvimento da comunidade, propiciando a plena participação dos cidadãos e o respeito dos princípios democráticos, para criar novas formas de solidariedade.
Portanto, rever valores, rever posições e constituir focos de transformações globais para resgatar a essência das relações humanas mais solidárias, torna-se para nós educadores um desafio urgente nos dias atuais.
Maria Neusa dos Santos
Mestre em educação, membro da comissão de educação do CRP13/PB, professora em psicologia da aprendizagem UNIPÊ
Artigo publicado no Jornal o Correio da PB, em 20.03.2010, pg Homem & Mulher- seção 'conversa aberta'.